Reprodução/CGN Cascavel"Um Defeito de Cor é a história do Brasil", diz Ana Maria Gonçalves
A escritora Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra imortal da Academia Brasileira de Letras, rejeita o rótulo de "contra-história" para o seu romance e defende que a obra disputa o mesmo espaço da narrativa oficial do país.
A autora de Um Defeito de Cor concedeu entrevista à Agência Brasil durante passagem por Brasília no sábado (4), onde participou como convidada especial da 6ª edição do encontro Julho das Pretas que Escrevem, parte da programação do Festival Latinidades.
Ana Maria Gonçalves afirma que o romance — narrativa de 952 páginas sobre Kehinde, mulher negra sequestrada no Reino do Daomé, atual Benin, e escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia — não pretende se contrapor à história oficial, mas ocupar o mesmo lugar que ela sempre ocupou. "Ele não é uma outra versão, ele não é uma outra vertente, ele não está se contrapondo a um lugar. Ele está querendo ocupar aquele mesmo lugar que a história oficial do Brasil sempre ocupou, contada principalmente pelo olhar dos homens brancos", ressaltou.
A escritora também relaciona obras como a sua ao fortalecimento do debate sobre políticas de cotas raciais. Ela lembra que o livro foi lançado em 2006, ano que coincide com as primeiras experiências dessas políticas no país. "Livros como o meu ajudam a contar uma história para que o povo brasileiro entenda o porquê da necessidade de cotas", declarou.
Ao refletir sobre sua eleição para a cadeira 33 da ABL — tornando-se a 13ª mulher e a primeira mulher preta a integrar a academia —, Gonçalves destacou que não chegou sozinha. Ela atribui parte de sua eleição à candidatura anterior de Conceição Evaristo, que teria levado a sociedade a questionar a ausência de representação negra no órgão. "Nós somos 27% da população", lembrou.
No que diz respeito ao mercado editorial, a autora observa avanços nas últimas duas décadas, citando nomes como Jefferson Tenório, Eliana Alves Cruz e Cidinha da Silva, e uma nova geração de mulheres pretas escrevendo nas periferias de São Paulo. Para ela, a produção negra contemporânea "já não é mais lida como literatura panfletária ou de menor qualidade".
A jornalista Waleska Barbosa, idealizadora do coletivo que promove escritoras negras no Distrito Federal e mediadora do encontro, reconhece o avanço, mas alerta para limites concretos. "Publicar um livro é caro. E publicar não é uma coisa só. Tem a circulação, a distribuição, a crítica, as premiações. Quando a gente vai esmiuçar os números, nunca é tanto assim o avanço da estatística", pontuou.
Waleska também citou o caso da escritora Lilia Guerra, convidada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) no ano passado e acusada injustamente de roubo no hotel em que estava hospedada, como exemplo das contradições que ainda marcam esses espaços. Para ela, a escritora Conceição Evaristo, homenageada em grande exposição em São Paulo, igualmente "já disse que ao caminhar pela Avenida Paulista, ela continua sujeita ao racismo cotidiano".
Fonte: CGN Cascavel